Uma série sobre Inteligência Jurídica para quem toma decisões
Diagnóstico Executivo 04
Por Dr. Celso Palermo Júnior
CEO da Advocacia Palermo | Advogado
Em grandes departamentos jurídicos, o desafio do diretor não é acompanhar cada processo individualmente.
Nem deveria ser.
Em estruturas que administram milhares ou milhões de eventos processuais, novas demandas ingressam continuamente, decisões são proferidas em diferentes regiões, escritórios externos atuam em carteiras distintas e informações circulam por sistemas, relatórios e áreas internas.
O problema começa quando, no meio desse volume, uma mudança relevante de comportamento demora a aparecer.
Não é a nova ação isolada que importa.
É o padrão que começa a se formar.
Uma determinada tese passa a crescer.
Uma região começa a concentrar decisões desfavoráveis.
O valor médio de exposição sobe.
Uma carteira antes estável começa a demandar mais acordos.
Um tipo específico de liminar se torna recorrente.
Uma mudança operacional começa a aparecer repetidamente no Judiciário.
Nenhum desses movimentos, isoladamente, precisa parecer crítico.
Mas, quando vistos em conjunto, podem representar o início de um impacto financeiro relevante.
Em estruturas jurídicas complexas, a informação precisa subir em camadas.
O nível operacional acompanha processos.
A gestão intermediária acompanha carteiras.
A alta liderança precisa enxergar tendências, desvios, riscos emergentes e impactos potenciais.
Por isso, o diretor jurídico não deveria receber um volume maior de dados.
Ele deveria receber menos informação, mas informação melhor.
Informação capaz de responder perguntas como:
Grandes organizações normalmente não sofrem por escassez de informação.
O desafio está em organizar essa informação de acordo com sua relevância executiva.
Nem toda movimentação processual merece atenção da diretoria.
Nem toda variação estatística representa risco.
Nem todo crescimento de volume exige intervenção.
Mas determinados padrões, quando combinados, podem alterar significativamente a leitura da carteira.
É aí que entra o Contencioso Estratégico.
Seu papel não é substituir a gestão processual.
É criar uma camada superior de interpretação.
A gestão processual responde:
— o que aconteceu em cada processo?
O Contencioso Estratégico pergunta:
— o que está mudando no comportamento da carteira como um todo?
Essa mudança de pergunta é decisiva.
Porque o diretor jurídico não precisa conhecer cada evento.
Precisa saber quais eventos, quando agregados, estão começando a formar um risco.
Prever não é adivinhar.
Também não significa eliminar incerteza judicial.
Previsibilidade jurídica significa construir capacidade para identificar, cedo o suficiente, alterações de comportamento que possam exigir decisão.
Por exemplo:
Talvez uma das maiores fragilidades em estruturas jurídicas de grande porte esteja justamente naquilo que ainda não alcançou materialidade suficiente para chegar ao diretor.
O problema já existe.
Mas ainda está fragmentado.
Aparece em diferentes escritórios.
Em regiões distintas.
Em pequenos grupos de processos.
Em relatórios separados.
Em indicadores que, individualmente, ainda não ultrapassaram nenhum limite de alerta.
É nesse intervalo que existe uma oportunidade importante de gestão.
Antes que o problema se torne grande o suficiente para aparecer no resultado financeiro.
Antes que a provisão precise ser revista de forma relevante.
Antes que o tema chegue ao conselho como surpresa.
Quanto maior a carteira, menos sentido faz administrar a informação apenas pela ótica do processo individual.
A escala exige outra arquitetura.
Dados processuais precisam ser organizados por tema, valor, região, produto, comportamento decisório, recorrência, tendência e materialidade.
A inteligência artificial pode ampliar significativamente essa capacidade ao classificar grandes volumes de documentos, identificar padrões, correlacionar variáveis e destacar exceções que dificilmente seriam percebidas por análise manual.
Mas tecnologia, sozinha, não produz previsibilidade.
É necessário saber o que procurar.
Quais sinais importam.
Quais desvios são relevantes.
Quais combinações de indicadores merecem intervenção.
A tecnologia amplia a capacidade de leitura.
O Contencioso Estratégico define a lógica de interpretação.
Quando a informação jurídica chega estruturada, priorizada e contextualizada, o papel da liderança também muda.
O diretor deixa de receber apenas explicações sobre o que já ocorreu.
Passa a participar de decisões sobre o que deve ser feito antes.
Isso pode envolver:
Em uma grande organização, o diretor jurídico não precisa saber quantas novas ações entraram ontem.
Ele precisa saber se essas novas ações, somadas às demais informações da carteira, estão começando a contar uma história diferente.
Porque o maior risco não é existir um problema na massa processual.
É o problema crescer dentro dela sem ser reconhecido como tal.
A questão central, portanto, não é:
— quantos processos temos?
Nem mesmo:
— quanto está provisionado hoje?
A pergunta executiva é outra:
— quais sinais relevantes já estão presentes na carteira e ainda não chegaram à diretoria como risco?
Dr. Celso Palermo Júnior é advogado com atuação em Contencioso Corporativo Estratégico, Estratégia Jurídica Empresarial e inteligência jurídica aplicada à gestão de grandes carteiras processuais. Desenvolve projetos voltados à estruturação de dados, identificação de padrões, utilização de inteligência artificial, recuperação de ativos e apoio à tomada de decisão executiva.